ARAÇATUBA | 21 AGOSTO
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CULTURA E ARTE
PARLA!
VOSSA EXCELÊNCIA O ARCO-ÍRIS

Julho é o mês mais seco do ano, mas aquele dia amanheceu nublado em Palmas. Sob o céu fechado na capital do Tocantins, o vereador Filipe Martins saiu de casa para mais um dia de trabalho “em defesa da família”, como prega seu slogan. Eleito pelo PSC, com pouco mais de 1.800 votos, Filipe tem cobrado a isenção de ICMS para templos religiosos e, no mês passado, comemorou a desobrigação das igrejas de apresentarem o Estudo de Impacto de Vizinhança para obterem suas licenças.

O vereador, porém, ficou nacionalmente conhecido neste mês por alterar o nome de uma creche. Escolhido pela própria comunidade, o nome Arco-Íris foi mudado para Romilda Budke Guarda, em homenagem a uma líder comunitária local. Mais do que homenagear Romilda, entretanto, Filipe justificou a mudança para evitar a “promoção do homossexualismo”, já que o arco-íris se tornou há tempos a bandeira identitária do movimento LGBT+.

Mesmo sendo cristão e acreditando que o arco-íris também seja o “arco-da-aliança”, um símbolo do compromisso de Deus em não destruir a Terra com um novo dilúvio, como teria feito na época de Noé, o vereador crê que o arco-íris, hoje, represente mais a comunidade LGBT+ e seria, por isso, “apologia ao homossexualismo”, ainda mais em se tratando do nome de um centro infantil.

A palavra arco-íris, na verdade, tem origem na mitologia grega. Reza a lenda que a deusa Íris era a grande mensageira dos outros deuses, deixando um rastro multicolorido ao atravessar os céus. Na cultura iorubá, o arco-íris também é representado como um mensageiro divino aos seres humanos na figura do orixá Oxumaré. Porém, para o vereador, o arco-íris é, nos dias atuais, uma mensagem a ser evitada.

Naquele dia, ele chegou bem satisfeito à Câmara Municipal. Sua emenda modificativa havia sido aprovada e sancionada pela prefeita de Palmas, sem vetos. Lá estava publicada no Diário Oficial a alteração de nome proposta por ele. Assim, as famílias palmenses poderiam dormir em paz: suas crianças estavam a salvo do risco de serem – Deus nos livre! – homossexuais.

Na volta pra casa, mal saiu da Câmara, Filipe viu um raio riscar o céu e ouviu um grande estrondo. De repente, a chuva caiu pesada sobre Palmas, obrigando-o a parar o carro, porque não podia se ver nada, além da água. Para passar o tempo, e porque estava muito feliz com o novo nome da creche, resolveu ligar o som. Procurou uma rádio evangélica para ouvir um louvor, mas a única emissora que conseguiu sintonizar estava tocando “Somewhere over the rainbow”, na voz de Judy Garland.

Já no fim da música, a pancada de chuva cessou, milagrosamente. E, antes que a voz de Judy e o trompete se calassem de vez, surgiu no céu, à frente do vereador, um belíssimo e impressionante arco-íris.

 

 

Eder Parladore é jornalista, redator publicitário, roteirista, cronista e poeta. Já trabalhou em jornais, revistas, produtoras e agências do interior de São Paulo e Minas Gerais. Prestes a lançar seu primeiro livro de poemas, atualmente também faz parte, como autor e ator, do espetáculo musical “Samborê Barravento”, sobre a importância dos negros e das religiões de matriz africana no Brasil.


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