ARAÇATUBA | 21 AGOSTO
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CULTURA E ARTE
PARLA!
Um dos 23

Eu não via nada. Era muita fumaça, muita mesmo. Meus olhos ardiam demais. Fiquei quase cego, sabe? Ouvi mais tiros na minha direção; uma bomba explodiu perto de mim. Voavam paus, pedras. Eu precisava sair detrás daquela banca de jornal e buscar um abrigo seguro. Então, tentei abrir os olhos, e vi o choque chegando cada vez mais perto.

Num ímpeto, corri pro outro lado da avenida e alcancei a esquina, onde uma lixeira ardia em chamas. Pra minha surpresa, a polícia também vinha por essa rua. Paralisei na hora. Nunca tinha sentido aquilo antes, aquele medo de bicho acuado no safári. O que eu podia fazer? Sem pensar direito, peguei duas pedras, enfiei no bolso.

E pensar que naquele dia tinha saído de casa pra uma manifestação pacífica! Era isso que a gente queria, todas aquelas milhares de pessoas comigo, ali, cantando forte pelas ruas do centro. Algumas até chegaram a dar flores aos policiais, minutos antes. Aí tudo mudou. Uma bala de borracha perfurou o olho de um fotógrafo. De repente, as palavras de ordem deram lugar a gritos de pavor.

Não era só pelos 20 centavos, sabe? A gente foi pra rua por tanta coisa, bem mais do que as 5 causas dos Anonymous. Muito mais! Era um misto de basta! com esperança. Parecia que todo mundo tinha, finalmente, acordado. Não ia ter Copa. Não ia ter PEC 37. Não ia ter cura gay. Não ia ter foro privilegiado. Não ia ter mais pilantras fodendo com o nosso dinheiro. Os brasileiros protestavam até no exterior. A mídia gringa a nosso favor. Tudo tomado!

Encurralado entre o choque e a polícia, eu resisti até o fim. Mas acabei preso. Me enquadraram com as pedras e um frasco de vinagre na mochila. Mais nada. Depois soube que a polícia também tinha grampeado meu telefone e vasculhado minhas redes sociais, com autorização da justiça. Por isso, no último dia 17 de julho, fui condenado a 7 anos de prisão em regime fechado por formação de quadrilha e dano qualificado. Logo eu, que nunca organizei nem festa de aniversário, muito menos depredei alguma coisa!

Repito: não conheço os outros do tal “grupo dos 23”, a galera que foi condenada junto comigo. Na decisão, o juiz afirma que eu tenho “personalidade distorcida” e classifica como “inacreditável o ex-governador Sérgio Cabral e sua família terem ficado sem o direito de ir e vir”, quando a gente acampou na frente da casa deles. Como assim se, no ano passado, ele foi condenado a 14 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, justamente o que se denunciava na época?

Já disse mil vezes que não sou black block, sou professor. E nunca usei máscara. Eu quase fiquei cego, isso sim! Não tão cego quanto a justiça. Esta deusa de olhos vendados que finge não ver, mas enxerga até o que não existe.

 

Eder Parladore é jornalista, redator publicitário, roteirista, cronista e poeta. Já trabalhou em jornais, revistas, produtoras e agências do interior de São Paulo e Minas Gerais. Prestes a lançar seu primeiro livro de poemas, atualmente também faz parte, como autor e ator, do espetáculo musical “Samborê Barravento”, sobre a importância dos negros e das religiões de matriz africana no Brasil.

 


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