ARAÇATUBA | 18 JUNHO
| 19:37 | 16° MIN 28°MAX |
Pancadas de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
POLÍTICA E ADMINISTRAÇÃO
ECONOMIA
MARCELO TEIXEIRA: 'Jornalista, pescador de ilusões'
Nesses últimos tempos venho sendo surpreendido com notícias sobre jovens e promissores jornalistas que conheço abandonando a profissão. Dos últimos, uma decidiu dedicar-se exclusivamente ao estudo do Direito, outro preferiu lecionar História. Em minhas reflexões, regresso aos tempos de faculdade, assim como ao início de minha carreira, e acabo me lembrando de outros colegas que também desistiram do jornalismo: uma produtora da TV Coroados, uma repórter da TV Cataratas, repórteres e apresentadores da TV Progresso (atual TV Tem), profissionais da Agência Interior, e por aí vai.

Não se trata de uma exclusividade local ou regional. É sistêmica. Como noticiado pela Folha de São Paulo, em 2015, quando venceu o prêmio Pulitzer, o maior do jornalismo dos Estados Unidos, por seu trabalho no jornal The Post and Courier, Natalie Caula Hauff não era mais repórter. Meses antes ela havia abandonado o ofício para trabalhar como relações públicas. Outro profissional, Rob Kuznia - ele também se tornou RP -, também já havia deixado o Daily Breeze antes de saber que era um dos ganhadores a honraria. Argumentou que não conseguia pagar o aluguel com sua remuneração no jornal.

É fato que o jornalismo está passando por uma profunda transformação, por vários motivos, como queda de receita das mídias tradicionais, salários baixos e precarização nas relações de trabalho, crise de credibilidade. Acredito que todas as razões possam ser resumidas em um único conceito: desilusão. O jornalista quer realizar algo - pautar, produzir, escrever, editar nota, matéria, reportagem - que faça a diferença na vida das pessoas, com liberdade editorial, e quer ser pago adequadamente por isso. Quando um desses fatores, parte deles ou todos eles não ocorrem, e dada a natureza exigente da profissão, vem o desencanto e, há de se entender, a consequente abdicação.

Não foi à toa que, em 2013, o site americano CareerCast.com listou a profissão de repórter de jornal em 200º lugar em uma lista de exatamente 200 profissões, classificando-as da melhor à pior a partir de cinco critérios: ambiente de trabalho, salário, nível de estresse, exigência física e condições de contratação. Sem demérito algum às outras ocupações, repórter de jornal ficou atrás de lenhador, militar e trabalhador de fazenda de gado. Embora a pesquisa (que a meu ver parece não ter lá muito critério científico) referir-se a repórter de jornal impresso, tomo a liberdade de estendê-la aos demais veículos jornalísticos. E não preciso perguntar a nenhum colega jornalista se nos últimos quatro anos alguma coisa melhorou. Sei a resposta.

Pesquisando sobre o tema, encontrei o texto "Jornalista: a pior profissão do mundo", em que Marco Túlio Pires diz que costumava olhar para as empresas de comunicação como um fim, um objetivo, um ponto a ser chegado. Isso até ele conversar com Ben Hammersley, um editor da revista Wired UK, que afirmou acreditar que os jornalistas do futuro não vão trabalhar em empresas. "Ninguém vai fundar um jornal. Um bando de caras talentosos irá se reunir e vai configurar algo (...). O projeto vai render excelentes histórias, durar uns seis meses (...). Se o trabalho for bom, as pessoas vão querer saber como o projeto foi feito, quem estava envolvido. Talvez renda um livro, aparições na TV e palestras. O dinheiro pode vir disso tudo".

O raciocínio é interessante, mas tenho dificuldade em conceber esse futuro de Hammersley. No entanto, assim como ele e Pires, penso que o problema não seja a profissão, e sim o meio, o modelo de negócio, os vícios, as falsas premissas, as falsas promessas. Tanto é assim que não me canso de dizer que o jornalista tem que se reinventar e que existe vida além das redações. Devo ser sincero e revelar que essa espécie de metanoia não é fácil, e que se perde em grande parte o glamour do jornalismo de décadas passadas ou aquele ainda idealizado na faculdade.

Desculpo-me pelo tom melancólico dessa abordagem, pois não é esta a minha intenção. Sou um apaixonado pelo jornalismo, como tantos outros, que quer alertar e continua persistindo na busca por respostas e, quem sabe, soluções para ao menos reduzir a debandada dos alegas profissionais.

*Marcelo Teixeira é jornalista e empresário do setor de comunicação corporativa
Anunciante
O Araçatuba e Região não se responsabiliza pelas notícias de terceiros.
Entre em contato através do telefone ou whatsapp a seguir e saiba como anunciar aqui
(18) 99774 5888
Copyright © 2018 Política e Mais. Todos os direitos reservados.