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OPINIÃO
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ARTIGO
John Lennon também seria vaiado no Brasil
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Após vaiarem o Roger Waters e a cena gay em Bohemian Rhapsody, alguém duvida de que John Lennon (sei que mataram ele, blz, gente?) seria vaiado no Brasil? Para mim, sem dúvida alguma ele seria vaiado, assim como acredito que pode ocorrer o mesmo com artistas como Joan Baez, Madonna, Dixie Chicks, Green Day e outras bandas punk e do rock gringo e brasileiro. Vou explicar o porquê de acreditar nisso.

Paul McCartney nunca foi e jamais será vaiado no Brasil, ou em qualquer parte do mundo. Sempre foi a força sensível e otimista dos Beatles, das melodias e letras dos maiores hinos já escritos na história da música popular (Hey Jude, Yesterday, Let it be). Sua musicalidade é virtuosa, mostra do seu gênio como instrumentista e vocalista. Com tanto talento musical, Paul nunca foi dado a causas sociais e políticas lá nas décadas de 60 e 70. Não é um bolsonarista; está mais para coxinha em cima do muro.

Já Lennon era uma metralhadora atômica contra governos, instituições e demais forças opressoras. Tinha também talento musical e sua inventividade incomparável colocou os Beatles num distinto status enquanto arte. Seu maior legado para a humanidade veio após o fim da banda: em Imagine ele descreve um mundo ideal, sem divisões, onde as pessoas vivem em harmonia e paz. Se declara um sonhador esperançoso e foi a maior força artística durante a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. A imagem da menina nua correndo chorando numa rua bombardeada é bastante associada à canção.

Pela sua conduta pessoal inseparável da vida artística pública, transformou seu cotidiano íntimo e de sua companheira Yoko Ono numa obra de arte aberta que militava pela paz. Assim como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr., recusava práticas violentas para conquistar a paz. Os três morreram assassinados com tiros à queima-roupa. No Brasil de hoje, colocariam John Lennon no grupo dos “petralhas”, comunistas, “esquerdopatas” e afins.

Mas quem vaiaria John Lennon e por quê (dentro dessa hipótese absurda que levanto para mera reflexão)? As mesmas pessoas que vaiaram Roger Waters, baixista original do Pink Floyd e principal compositor da banda, e a cena do beijo gay no filme sobre a história do Queen. Este 2018 é o ano em que muitos brasileiros descobriram a realidade sobre artistas que conheciam mais ou menos. Uma linha de defesa pró-vaia nas redes sociais tinha como argumento que o artista deveria “apenas” tocar a canção, sem fazer manifestação política.

Como esses caras poderiam fazer isso?

Waters é para o Floyd como Lennon é para os Beatles: ácido, sarcástico, crítico voraz da realidade à sua volta, da opressão. Another brick in the wall não é apenas música de abertura de rodeio ou aquele rock famoso que toca em baile. Tudo o que o baixista escreveu é antissistema, ou seja, contra o capitalismo, as forças econômicas, as guerras, as indústrias, o dinheiro ... Ou seja, “petralha”, com certeza. Ou melhor: está mais próximo do que se entende como espectro político esquerdista.

Não daria para ele ficar no palco tocando e cantando essas músicas e o povo achar que é só isso que está acontecendo. O fato de ser em um idioma estrangeiro ajuda esse processo de se optar por uma ignorância confortável de consumidor alienado ávido por entretenimento. Errou, playboy. Pink Floyd não é entretenimento, apenas. Os caras são gênios da arquitetura musical que exploraram os mais diversos temas em suas letras, criando sons e melodias para o clima de desilusão, desespero, abandono, raiva, ansiedade e tantos outros sentimentos que surgem em suas músicas. Pink Floyd é denso e muita gente não sabia disso. A vida do Roger Waters são suas canções. Seria injusto esperar desse artista lendário a postura de um tocador de músicas: ele é o AUTOR de sua OBRA.

Sobre o homossexualismo de Freddie Mercury, só risos para quem não sabia. Já vi muitos conhecidos e desconhecidos metidos a machões se divertindo com I want to break free. Só risos. Mas, também, um pouco de tristeza. Por civilidade, no mínimo as pessoas deveriam conseguir controlar esse tipo de impulso, como uma vaia para um beijo gay.

Para encerrar, sobre as mulheres citadas no primeiro parágrafo, trata-se de três gerações diferentes de ativistas (à sua maneira): Joan Baez fez sucesso nos anos 1960, amiga de Bob Dylan, de Mercedes Sosa, famosa cantora de canções de protesto. Madonna é a estrela pop que surgiu nos anos 1980, símbolo da libertação feminina, protesta contra o fascismo, o preconceito racial, a fome. E a banda country Dixie Chicks, formada por três mulheres texanas, foi uma importante voz contra as guerras travadas pelo ex-presidente americano George Bush nos anos 2000; sofreram grandes boicotes por conta disso.

Tudo comunista! Huuuuuuu!!!!!

Fernando Verga é jornalista, escritor, músico e mestre em comunicação.


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