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OPINIÃO
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ARTIGO
Emoção vale mais que fatos objetivos. Bem-vindos à pós-verdade
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Como se antecipava, as eleições brasileiras de 2018 foram eclipsadas por notícias falsas. Elas contribuíram para que o debate político-social fosse para um terreno pantanoso e criaram uma grande cortina de fumaça para questões objetivas. Falou-se muito de comunismo e fascismo, mas de uma forma rasa que parecia piada de estudante que não leu o texto. A população se mostrou tal qual a leitura fatídica que o italiano Humberto Eco fez do nosso comportamento na internet: imbecil. A massa se estapeou nas redes sociais com memes e textos de páginas tendenciosas, quando não falsas, deixando de lado a objetividade e mergulhando num mundo de fortes emoções.

Algo semelhante aconteceu nos Estados Unidos e na Inglaterra em 2016 durante a eleição Trump x Clinton e o Brexit. Naquele ano, uma tempestade de notícias falsas assolou as redes sociais nestes dois países, criando um confronto extremamente polarizado que rememorou a Guerra Fria, muro de Berlim, episódios históricos de divisão esquerda-direita. Mas o que nossa eleição de 2018 tem a ver com isso? Tudo, pois o momento é o mesmo. Estamos na era da pós-verdade.

O termo existe desde 1992, criado pelo dramaturgo Steve Tesich, mas seu uso cresceu 2000% em 2016 e, por isso, foi eleito o vocábulo do ano pela Universidade Oxford, que o colocou no seu famoso dicionário. Pós-verdade é usado para relacionar ou denotar “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Quem, nestas eleições, não tentou convencer alguém apresentando fatos objetivos e foi desacreditado por alguma convicção “maior”?

O termo traduz o espírito do nosso tempo e revela muito sobre a crise que vivemos, um período de transição circunstanciado pelo mundo globalizado, digital e em rede. Crise, aqui, não é só a econômica, mas aquela que já vimos em outros momentos da história, quando há uma profunda transformação social em andamento mudando formas de pensar, de se comportar, de conviver.

O jornal inglês The Economist publicou um artigo em 2016 com o título “Arte da mentira”, em que trata da pós-verdade. No texto, explica que a sociedade colocou a verdade em segundo plano ao se render a mentiras e a fortes apelos ideológicos e emocionais de candidatos como Trump. “Sentimentos, não fatos, são o que importa neste tipo de campanha”, diz a publicação. A descrença na verdade está ligada ao abalo que instituições como o governo, o judiciário e a imprensa, por exemplo, passam; estão desgastadas e longe de apresentarem algo ideal, por isso o fenômeno de não acreditar completamente no que é oficial.

A mundialmente relevante publicação científica Nature também publicou pesquisa sobre o crescimento de notícias falsas. Detectaram, pelo comportamento dos usuários do Twitter, que trabalhos jornalísticos que passaram por uma produção profissional, com apuração, pesquisa e diversas fontes, foram esmagados pela virulenta proliferação de notícias falsas. A reportagem verdadeira mais popular alcançou, em média, mil usuários. Já a falsa mais popular chegou a até 150 mil usuários; isso nos Estados Unidos.

Esses dados em relação ao Brasil podem aparecer nos próximos meses ou anos, conforme as universidades e outras instituições forem concluindo suas pesquisas. Mas é fato que a disposição da população para algo apelativo, tendencioso e potencialmente falso é muito maior que para com a verdade. Isso pode até conquistar vitórias eleitorais, mas coloca a sociedade em risco grave; a chance de a enganar aumenta se a emoção está valendo mais que a objetividade quando se trata de política. Pelo lastro da experiência histórica, vê-se que notícias falsas não são nenhuma novidade. O historiador Marc Bloch escreveu, em 1921, um texto sobre sua experiência como soldado francês durante a primeira guerra mundial (Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra). Se você não conhece, pasme com este trecho de seu texto de quase 100 anos:

“As notícias falsas mobilizaram as massas. As notícias falsas, em todas as suas formas, encheram a vida da humanidade. Como nascem? De que elementos extraem sua substância? Como se propagam e crescem? Um erro só se propaga e se amplifica, só ganha vida com uma condição: encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores, todas as suas emoções”.

Que coincidência histórica, não?

Notícia falsa sempre foi estratégia de poder, mas agora aparece com uma roupagem contemporânea, a das redes sociais, em que uma legião de imbecis tem o poder de soterrar com emoção uma objetividade cada vez menor. Na pós-verdade, a notícia falsa é uma forte ferramenta para manobrar a massa.

Fernando Verga é jornalista, escritor, músico e mestre em comunicação.


 


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