ARAÇATUBA | 12 NOVEMBRO
| 23:12|
Um dia como nunca

O Rei de Nada passa em desfile com seu galardão de torturas na farda verde-oliva. Traz no peito condecorações cheias de aflição, do tapa seco ao pau-de-arara. E sorri confiante, exibindo a prótese importada que reluz ao sol do meio-dia. Está de pé no alto de um tanque de guerra, ornado de súplicas e berros. Tem sob a pele senil um coração inoxidável, que nunca alojou bons sentimentos por ninguém, nem por sua esposa, uma mulher ordeira e sempre muda no canto direito da sala de estar. Acena ao público com sua mão invisível enquanto seu séquito de gorilas distribui doces e sevícias.

Por onde passa, o Rei de Nada exala um forte aroma de martírios. Mas, o povaréu não se importa. Até gosta, acenando de volta com suas bandeirinhas de medo. Afinal, é feriado no país. Em todos os lugares a mesmíssima cena: uma empolgante parada para celebrar o nada; um gesto cívico em honra e graça ao vazio da existência. Essa excrescência parda e miserável que cabe com folga no camburão, em direção ao abismo sem nenhum chão. Parte da multidão, indagada sobre coisas desimportantes, não soube dizer por que e nem por onde a vida vai indo. Tornou-se, desde então, desaparecida, como uma nuvem que sequer choveu.

Ávida de acasos, a parada segue pela avenida principal, ladeada de palmeiras centenárias e quinquilharias do Paraguai, agora província anexa. O portunhol selvagem já tem se espalhado com lindas odes ao ódio. O céu opaco, para combinar com a ocasião, prenuncia uma forte tromba de mágoas. Não daquelas que destelham casas, porém, ideias, pensamentos, fazendo desmoronar as esperanças nesses dias interditados. “Daqui pra lá não se pode passar, senhora, muito menos com criança preta de colo! Daqui pra lá só é permitido aos homens de bem, nascidos entre o pão farto, o futebol de quarta e os melhores antibióticos”.

Há muito tempo, paradas assim só servem para reunir vermes, banqueiros e brasões de famílias falidas. Ao longo da via, senhores e senhoras distintas, com 32 dentes e vários segredos, comem pequenas porções fritas de desilusão, enquanto assistem à marcha da banda marcial. Um zumbido triste sai de uma velha tuba, lamentando o desaparecimento definitivo das abelhas. As crianças – balizas do desfile –, com três pernas e um olho só, caminham em zigue-zague, felizes. Seus pais e mães e tios e tias e primos e primas e vizinhos e vizinhas são hoje hologramas em escuros calabouços. E começa a tão aguardada execução do Hino Oficial das Pessoas de Bem.

No céu: fogos sem qualquer artifício saúdam os soldados rasos e profundos, os sargentos sem memória, os capitães covardes e outros espectros quase viris. Desfilam músculos e bigodes para uma patuleia fogosa. Palavras de baixo calão não se calam nas bocas das beatas, que se abanam sob sombrinhas de chumbo. O asfalto é uma lama pegajosa na bota dos generais com pouca patente. De repente, um urubu-rei pousa no ombro esquerdo do Rei de Nada, que se apruma ainda mais sobre o tanque de guerra. “A paz é uma questão entre néscios e negócios”, diria ele, depois, em pronunciamento aberto à nação.

O desfile está chegando ao seu destino: um desfiladeiro cavado com ajuda de todos. Agora passam, sem pressa, os últimos famintos, refugiados de países inimigos. São escravos que não reconhecem a língua local e falam palavras extintas, como “libertad” e “amour”. Estudiosos ainda não descobriram a que elas se referem. Uns dizem que são inúteis; outros, que não. Rodeados de incredulidade, os onze ministros do supremo horror nacional dançam com suas togas um samba antigo, do tempo em que existiam pandeiros e partidos políticos.

Para encerrar o cortejo, o Rei de Nada exigiu uma incessante chuva de canivetes. E lá vêm as lâminas descendo do céu claro e decepando galhos, sonhos e pescoços. Uma festa! O pipoqueiro ao meu lado ficou todo ensanguentado, e contente. Por fim, cada cidadão e cidadã deu um tiro no próprio pé, em homenagem ao Rei de Nada, e voltou para seu sacrossanto lar, mansamente e devagar, para ver o último capítulo da novela “A verdade nunca mais”.

 

 


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