ARAÇATUBA | 17 NOVEMBRO
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Poss. de Panc. de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
O fogo que não se apaga

Queimamos o museu mais antigo do Brasil, com 200 anos, e o quinto maior acervo do mundo. Queimamos a mais antiga instituição científica nacional e um dos maiores museus de história natural e antropologia das Américas. Queimamos um acervo com mais de 20 milhões de itens, desde múmias egípcias a extensas pesquisas sobre a Antártida.

Queimamos o fóssil humano mais antigo das Américas, batizado de Luzia, com 12 mil anos, descoberta que refez todas as pesquisas sobre a ocupação do continente. Queimamos fósseis de dinossauros datados do período Cretáceo, como pterossauros, com envergadura de asas medindo oito metros, e um titanossauro de treze metros de comprimento, além de um esqueleto completo de um Paraphysornis brasiliensis, gigantesca ave pré-histórica que por aqui viveu.

Queimamos a maior coleção de arqueologia egípcia da América Latina e a mais antiga das Américas. Queimamos o sarcófago em madeira policromada da cantora de Ámon, Sha-Amun-en-su, com cerca de 2.500 anos, ofertado como presente ao imperador D. Pedro II durante sua viagem ao Egito em 1876. O sarcófago nunca tinha sido aberto, ainda conservando a múmia em seu interior, o que lhe conferia notável raridade.

Queimamos toda a coleção de etnologia indígena, de vários povos nativos já desaparecidos, além de uma vasta biblioteca de antropologia. Queimamos estatuetas e urnas funerárias da cultura marajoara (século 5 a 15 d.C.) e tapajônica (século 10 a 15 d.C.). Queimamos as únicas múmias indígenas do território brasileiro: uma mulher e duas crianças do grupo dos Botocudos, encontrados em Minas Gerais no século 19. Queimamos todo o acervo de línguas indígenas, inclusive cantos em muitas línguas sem falantes vivos, e o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias do Brasil.

Queimamos o acervo de etnologia africana e afro-brasileira. Queimamos artefatos, objetos rituais, instrumentos musicais e armas de caça e guerra de diversos povos africanos. Queimamos o trono do antigo Reino do Daomé, dado de presente pelo rei Adandozan a Dom João VI, entre 1810 e 1811. Queimamos máscaras rituais de sociedades secretas dos Iorubás e Ecóis, exemplares da cestaria de Angola e Madagascar, bastões cerimoniais dos Côkwe e objetos musicais adquiridos junto ao rei de Uganda.

Queimamos 1.800 artefatos produzidos pelas civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana. Queimamos tecidos, adornos, cerâmicas, vasos e miniaturas de seres humanos e animais feitos com ligas metálicas à base de ouro, prata e cobre de variadas culturas dos Andes, da civilização Nazca (século 3 d.C.) à Inca (século 13 d.C.). Queimamos uma inestimável coleção de múmias andinas, inclusive a de um homem com idade estimada entre 4.700 e 3.400 anos.

Queimamos a maior coleção de arqueologia clássica da América Latina, abrangendo as civilizações grega, romana e etrusca. Queimamos toda a coleção greco-romana da imperatriz Teresa Cristina, com obras recuperadas de escavações nas antigas cidades de Herculano e Pompeia, destruídas em 79 d.C. por uma erupção do Vesúvio. Queimamos quatro afrescos do século 1 d.C. que adornavam as paredes do Templo de Ísis. Queimamos o amplo conjunto de cerâmicas italiotas da Magna Grécia.

Queimamos boa parte da memória da família real portuguesa no Brasil e do período imperial. Queimamos o palácio onde cresceram Dom Pedro I e Dom Pedro II, com todo seu mobiliário e obras de arte colecionadas pela realeza, de 1500 a 1889.

Queimamos o local onde a princesa Leopoldina assinou a declaração de independência do Brasil em 1822 e que, anos depois, também foi palco da primeira Assembleia Constituinte da República, entre 1890 e 1891.

Queimamos o museu visitado por Einstein, Madame Curie, Lévi-Strauss, Santos Dumont e tantos gênios.

Queimamos milênios de história, séculos de pesquisa e uma eternidade de sonhos e descobertas.

Queimamos o passado, o presente e o futuro.

Queimamos o tempo e o espaço.

Queimamo-nos.

 


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