ARAÇATUBA | 9 DEZEMBRO
| 17:27 | 15° MIN 31°MAX |
Parcialmente Nublado - Fonte: CPTEC/INPE
História de pescador

Bom, deixa eu me apresentar: meu nome é Adauto, mais conhecido como Dadá Tarrafa. Caiçara aqui de São Sebastião, com muito orgulho! Filho e neto de caiçaras, um povo que é meio gente meio peixe, de tanto que vive no mar de dentro. Um povo que divide seu tempo entre o barco e a terra firme. Se bem que a terra, pra mim, nunca é firme. Acho que balança tanto ou mais que a água, sabe? Vez em quando, me pego mareado na rua, mas no mar isso não acontece não. Caiçara é bicho marinho, croa, ouriço. Uma coisa assim ou parecida.

Pois bem, um tempo atrás eu fui pagar as contas do mês. Lembro que era dia de sábado e tava muito nublado. A Tereza, minha mulher, tinha ido ver a mãe dela em Paraty. Por causa do tempo fechado, nem fui pro mar. Passei na lotérica do centro e acabei fazendo uma fezinha na mega – coisa que eu nunca faço. E fiquei por ali. Encontrei uns companheiros, e a gente foi molhar o beiço num boteco. De lá, embaixo de chuva, ainda fomos prum aniversário na Praia do Arrastão.

Acontece que aquele bilhete, aquele mísero bilhete, sozinho, que eu joguei na loteria, por acaso, foi o premiado. Isso mesmo! Logo eu, que nunca ganhei uma rifa na vida, fui o ganhador da mega-sena acumulada! E sabe quanto? Vinte e dois milhões de reais! Vou repetir: vin-te e do-is mi-lhõ-es de re-a-is. É um dinheiro que eu não sei o tamanho até hoje. Imagina aquele monte de nota empilhada, só de cem e de cinquenta! Que tamanho será que fica, hein? Eu fiquei pensando nisso uns dias. Quanto dinheiro, meu Deus!

Logo eu, que nem pego em dinheiro direito! Quem cuida dessas coisas em casa é a Terê. Ela que vai no banco, deposita, tira, paga as contas. Eu não gosto de dinheiro, de lidar com dinheiro, sabe? Coisa suja, eu acho. Não gosto, nunca gostei. Quem vende o peixe é ela, quem recebe o dinheiro, dá o troco, tudo. Eu só pesco. Minha função nessa vida é acordar de noite, arrumar a tralha na ubá, entrar no mar, jogar a rede e, de manhã, trazer a pesca do dia. Daí eu separo, limpo e até embrulho se precisar. Mas mexer com dinheiro, isso eu não mexo não.

Tanto é que demorei mais de mês pra confirmar que tinha mesmo ganhado aquela dinheirama toda. Logo que saiu o resultado, o povaréu já começou a falar, mas eu nem dei por mim, sabe? Como eu não tenho hábito de jogar, não fui correndo conferir o resultado. Pensei: foi outra pessoa, claro! Nem vou perder meu tempo. Mas conforme foram passando os dias, e o assunto continuou na praia, eu encafifei e fui conferir. Procurei na caixa de sapato onde a gente guarda as contas, e não tava lá. Como já fazia um bom tempo que eu tinha jogado, nem procurei nos bolsos da bermuda que usei aquele dia.

Então, fui perguntar pra Terê sobre o bilhete. Por coincidência, ela tinha limpado o armário no dia anterior. Falou que viu um bilhete, mas como era velho jogou fora junto com o resto da papelada. Até brincou: “Bem que podia ser o premiado!”. Disfarcei um pouco na frente dela e corri pra lixeira, com o coração na boca. Tinha bula de remédio, panfleto de mercado, receita, conta, tudo no lixo, menos o bilhete. Cacei, cacei, cacei. E, depois de muito garimpo, encontrei ele todo amassado, mas ainda inteiro. Quando vi que eu tinha mesmo ganhado, senti algo que nunca tinha sentido antes: uma mistura de gozo com pavor, um frio no pé da barriga que se espalhou pro resto do corpo, uma tontura forte, uma alegria bruta demais, que veio assim num solavanco.

Saí cambaleando até o banheiro, sentei no vaso. Meu Deus, eu ganhei na mega-sena! O corpo inteirinho treme, sabe? Fiquei uns quinze minutos assim, tentando controlar o corpo pra não fazer barulho. Vinte e dois milhões, e eu era o ganhador! É muito dinheiro, muito. Eu finalmente ia poder comprar um iate pra conhecer todo o litoral do Brasil, que é meu sonho desde moleque. E ia poder levar a Terê pra conhecer Bariloche, ver a neve de perto, que é o sonho dela. Que maravilha!

Mas daí, um segundo depois, eu pensei: vai acabar de vez o meu sossego. Já não basta o verão que todo ano traz essa leva de turista pra aporrinhar a vida da gente? Agora, eu é que vou aporrinhar a vida dos outros? Não mesmo! Aqui eu já tenho tudo: o mar, a ubá, a Terê, a tainha, a fresca, a farinha, os amigos. Que mais eu quero da vida? Quem vai saber em que praia vou me afundar nesse Brasilzão? Aqui eu conheço cada braça de água, cada pedra, cada concha. Sei me virar no mar e na mata. Faço fogo, canoa, amor. Não há lugar melhor que esse litoral norte. Não quero casa com cerca elétrica, alarme, cão de guarda e portão alto. Isso nunca! Nem andar com segurança pra lá e pra cá. Deus me livre! Ia ser um inferno.

Na sexta passada, último dia que eu tinha pra resgatar o prêmio, levei o bilhete comigo na ubá. Lá no meião do mar, quando o sol nasceu, entreguei o bilhete pra Iemanjá. A Terê nem sonha. Mas é melhor assim. Praia por praia, aqui tá bom demais, e Bariloche é até perto. Um dia, a gente dá um jeito.

 

 

 

 

 

 


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