ARAÇATUBA | 9 DEZEMBRO
| 18:31 | 15° MIN 31°MAX |
Parcialmente Nublado - Fonte: CPTEC/INPE
Freddie, minha majestade

Deitado sobre o piso de vermelhão, eu fechava os olhos e só ouvia a voz dele. Era mágico, como quase tudo na infância. O piso, perfumado com a cera que a vó Pierina passava no chão, aliviava o forte calor da tarde. Entre minhas pálpebras, pequenas manchas luminosas se formavam por causa da claridade vinda da janela. Meu tio Ivo, dono do quarto, tinha acabado de colocar “Love of my life” no toca-discos. Não sem antes, é claro, deslizar sua esponjinha azul e vermelha para tirar a mínima poeira do bolachão.

Era sábado, dia de ouvir o som no último volume e mexer na sua bicicleta. Naquela época, seu apelido já era Vermelho, porque ele é bem ruivo, mais até que meu avô, pai dele. Meu tio Vermelho é apenas 12 anos mais velho que eu. Então, quando eu era criança, ele estava se tornando adulto e, pra minha sorte grande, era apaixonado pelo Queen. Colecionava todos os discos da banda, guardados cuidadosamente numa caixa fina de madeira.

Quando eu abria os olhos, deitado no chão do seu quarto, via um pôster enorme do Freddie Mercury, de corpo inteiro, com aquele bigode cafajeste sobre o lábio superior proeminente – por causa dos quatro dentes a mais, seus indefectíveis óculos Ray-Ban e os pelos másculos no peito aparecendo acima da regata branca, coberta nos ombros por uma jaqueta vermelha. Sua imagem me fascinava ao ponto de ficar horas olhando pra ela, pra cada detalhe, inclusive pro volume do seu pau sob a calça branca e justa.

Porém, eu ainda não sabia que ele era bissexual, nem que eu fosse gay. Com 7, 8 anos, me achava diferente dos outros meninos, mas não conseguia dizer o porquê. O que eu sabia é que aquele homem era lindo e cantava de um jeito que, mesmo sem entender nada de suas letras, me tocava tão fundo a alma, e mais ainda o corpo. Um fascínio que me acompanha por toda a vida, até agora enquanto escrevo esta crônica.

Por esse motivo, fui ontem ver o filme “Bohemian Rhapsody” a convite do João, meu namorado. Para me convidar, ele deixou o bigode igual ao do Freddie. Não preciso dizer que chorei muito. Chorei pelo agrado do João. Chorei por recordar cenas da infância embaladas por “Under Pressure” e “Radio GaGa”. Chorei por me lembrar do pânico que sentia da AIDS sendo um gay adolescente nos anos 80. Chorei pela vida de Freddie. Chorei pela morte de Freddie. Chorei pela minha vida e pela minha morte futura. Chorei. Chorei. Chorei. E, sobretudo, chorei de amor – o único motivo pelo qual deveríamos chorar.

Afinal, estava ao lado de quem amo hoje, vendo a história do primeiro homem que amei. Ou seja, cercado de amores. Loves of my life. Por consequência, meus amores platônicos também se sobrepuseram ao rosto do ator Rami Malek. Revi cada um ao som daquela trilha magnífica, trocando afagos com meu amor real e presente, João, e beijando seu bigode “à la Freddie”. Tudo junto. Tudo intenso. Tudo como “a kind of magic”.

Terminada a sessão, fomos os últimos a deixar a sala, e também os últimos a sair do shopping, mais de meia-noite. Na volta pra casa, a pé, de mãos dadas, eu e João passamos por um grupo de adolescentes, e uma menina disse de repente: “Vocês dois são lindos!”, abrindo um sorriso imenso. Agradecemos, meio sem graça, surpresos pelo afago anônimo nesses tempos tão sombrios.

Em casa, abrimos um vinho para comemorar e assistimos às emblemáticas apresentações do Queen no Live Aid e no Rock in Rio. Minha tia Vera, irmã do tio Ivo, foi a esse lendário show do Queen no Rio, em 1985. Em vão, tentei procurá-la na multidão de centenas de milhares de pessoas – o maior público pagante na história da banda. Óbvio que não a encontrei, mas de certo modo encontrei a mim mesmo.

Por fim, eu e meu namorado fomos dormir depois das três da manhã. Ao contrário das outras noites, João dormiu primeiro, e eu fiquei acordado, olhando pro teto do quarto, em êxtase absoluto.

Thank you all, Freddie!

 


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