ARAÇATUBA | 19 OUTUBRO
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Pancadas de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
Ela, sim

Ela acordou mais viva do que nunca naquele sábado de sol. Olhou-se no espelho e sentiu orgulho de si mesma, de todos os caminhos por onde andou até chegar ali, naquele exato momento. Lembrou-se da mãe, das tias, das avós, das atávicas mulheres que lhe deram origem e que a possibilitaram ser dona de seu próprio destino.

Com renovada autoestima, passou o café. Bebeu cada gole sorvendo o calor da vida, agora plena de sentido e amor. Olhou pela janela e viu que já havia uma movimentação diferente nas ruas. Tomou banho prestando atenção às mínimas curvas do seu corpo, este corpo que tanto a incomodara antes. Olhou-se novamente no espelho. Era linda, sim. E não daria mais ouvidos a quem dissesse o contrário. Assim, pôs seu vestido mais colorido, mais extravagante, aquele que alguns amigos diziam não valorizar sua silhueta. Depois, se maquiou com cores fortes, vibrantes, passando batom nos lábios e também nas bochechas. Pronto! Estava ainda mais bela, e poderosa.

Ao passar pela sala, pegou o cartaz que havia feito no dia anterior, com corações de papel crepom cheios de glitter. O cartaz estava tão lindo e multicolorido quanto ela. Confiante, desceu o elevador ao lado de um senhor que a olhou assombrado. Porém, aquele dia não seria de sombra. Pelo contrário, seria de luz, de uma luz tão ofuscante quanto o sol a pino que iluminava a cidade quando ela saiu do prédio, feliz.

Pelas ruas, algumas pessoas a olhavam com repúdio, outras com admiração. Ela olhava a todos com o único sentimento que tinha: empatia. Cumprimentou com a cabeça até aqueles que a apontavam e riam dela. Não se importava mais. Ela se importava apenas em ser ela mesma e a lutar por essa mulher que havia se tornado, seus direitos, sua história, sua liberdade de ser, de estar, de ir, de vir e de voltar à hora que quisesse, quando fosse, sem que ninguém dissesse a ela o que fazer e, principalmente, o que não fazer.

Faria o que deveria ser feito: conquistar seu lugar, dar volume à sua voz, compartilhar com outras mulheres a força e a graça infinitas de fazer valer seu direito à vida como deve ser vivida – em todo seu esplendor, com respeito a tudo que é vivo, com um olhar doce e franco sobre as gentes e as coisas, vendo o mundo para além de seu minúsculo umbigo, em comunhão com outras mulheres e contra qualquer forma de opressão, machismo ou estupidez.

Chegou a uma esquina apinhada de outras mulheres como ela, empoderadas e destemidas. Sentiu, pela primeira vez, a pele do corpo inteiro se arrepiar com aquela sensação aconchegante de estar entre iguais. Sorriu um sorriso imenso, e recebeu outros imensos em troca. Agora sim, participava de algo grande, importante. Pertencia àquela multidão feminina, que entoava cantos e palavras familiares a ela, finalmente. Ergueu seu cartaz e se juntou ao mulherio.

Eram milhares de vozes e gestos em uníssono. Meninas, moças, mães, senhoras, anciãs, todas juntas, de braços dados, tocando tambores, cantando alto, com flores nas mãos. E ela, então, gritou o mais forte que pôde: ele, não!

 


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