ARAÇATUBA | 21 SETEMBRO
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Pancadas de Chuva - Fonte: CPTEC/INPE
Corações refugiados

Quando passei pela rodoviária, dei de cara com ele no meio da multidão. Apesar de abatido e até um pouco sujo, achei bem bonito, sabe? Ele não é alto, nem forte, mas alguma coisa nele me fisgou naquele instante. Não tinha visto ele aqui em Pacaraima antes. Também, todo dia chegam tantos venezuelanos, que é difícil saber se a gente já tinha se trombado.

Como a rodoviária tava apinhada de refugiados, ele nem me notou. Aí fui me achegando, devagar, e achei ainda mais bonito de perto. Então, ele me olhou pela primeira vez. E sorriu. Um sorriso acanhado, mas tão charmoso. Uma perdição, sabe? Fui logo oferecendo um gole da minha coca-cola. Ele aceitou dizendo que aquela coca era fabricada no país dele, a contragosto do Maduro. Tinha um sotaque tão sexy, mesmo bravo com seu presidente. Falou que aprendeu um pouco de português com uma carioca que conheceu em Maracaibo, numas férias, e que gostava das chicas brasileñas. Foi a deixa pra gente sair daquele tumulto e dar uma volta.

Ramón é hermoso em todos os sentidos. Engenheiro, tinha deixado Puerto Ordaz pra tentar a sorte no Brasil. Venezuela es un caos, me disse, triste. Quase aos prantos, afirmou que sua família tava passando necessidade; que não há emprego, nem dinheiro circulando por lá, e que o salário mal dá pra comprar o essencial. Mi madre solo llora!

Expliquei que não era dali, do Polo Norte de Roraima, e que tava morando com minha irmã há quase um ano. Perguntei se era solteiro; ele confirmou, mirando fundo nos meus olhos. Na hora, me deu uma vontade de levar ele pra casa, sabe? Então, resolvi levar só pra ele passar aquela primeira noite.

Porém, meu cunhado não gostou. Ele considera os refugiados “um bando de vagabundos”. Fiquei puta, sabe? Enfim, o Ramón ficou acampado perto da rodoviária mesmo. Todo dia eu passava por lá pra gente se ver. Cheguei a dormir com ele na barraca algumas vezes, mas lá não tinha nada, muito menos privacidade. Por amor e por pena, aprendi a fazer arepa e sempre levava pra ele e pra outros venezuelanos que passam uma fome lascada nesses acampamentos improvisados.

Aí, no sábado passado, a cidade amanheceu em fúria. Aquele monte de gente nas ruas, com paus e pedras, contra os refugiados. Um comerciante brasileiro foi assaltado e agredido por venezuelanos, e o clima pesou. Com medo, saí correndo pra saber como tava mi amor, mas ao chegar na rodoviária vi sua barraca e outras pegando fogo. Fiquei paralisada, sabe? Tudo queimando: roupas, pertences e até comida!

No tumulto, reconheci o boçal do meu cunhado e os amigos dele encabeçando aquela violência toda. Um horror! E depois ainda cantaram o hino nacional. Só fui ver o Ramón de novo pela tevê, numa reportagem mostrando os refugiados sendo expulsos da cidade. Nunca senti tanta vergonha, sabe?

Hoje, finalmente, ele conseguiu me ligar, rapidinho. E quer saber de uma coisa? Tô indo pra Venezuela, e de lá a gente vai junto pra Cuba.


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