ARAÇATUBA | 19 OUTUBRO
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Pancadas de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
As Coisas

As coisas, meu bem, acontecem. A gente acorda, e as coisas nem dormiram ainda. Estão lá, como a gente as deixou no dia anterior. Coisas novas sempre surgem, é claro. Escuras ou claras, as coisas aos poucos vão tomando outras formas, outras cores. Mas, algumas coisas permanecem iguais, eternas; não se dissolvem no mar bravio do tempo.

Às vezes, certas coisas surgem do nada – um susto! Outras desaparecem sem deixar vestígio – um mistério! Incertas coisas se tornam corretas, depois. E coisas velhas voltam a servir melhor do que antes. Até coisas inúteis podem ter serventia, se a gente reparar bem. Já algumas coisas não têm reparo, se quebram em mil pedaços, e são levadas um dia por uma súbita enchente.

Tem coisas poderosas, indestrutíveis. Nem o vento, nem o sol, nem a chuva, nada as modifica. Ficam lá, montanhas altas beliscadas pelas nuvens. E tem coisas que não aguentam um sopro, um toque. Mesmo a gente pegando com toda delicadeza, se desmancham no ar, voam.

Ah, meu bem, algumas coisas são tão traiçoeiras que derrubam a gente com um empurrão! A gente é muito frágil perto dessas coisas. A gente qualquer dia se quebra, e as coisas continuam aí, intactas. As coisas controlam a gente, e nunca sabemos onde fica a porta de saída. As coisas sacodem a gente de vez em quando, nos espancam sem dó, e arrastam a nossa cara no asfalto sujo.

As coisas não perdoam um mau humor bobo, uma palavra torta. Carrancudas, tiram a gente do sério. Ainda bem que outras coisas chegam, sem que a gente espere, e enchem nosso coração de nova esperança. Algumas coisas são pura alegria, êxtase absoluto. Coisas como estar ao sol num dia de inverno, ou ver uma flor, ou amar a si mesmo, mesmo só.

As coisas, meu bem, flutuam frementes sobre os precipícios. As coisas se perdem em cavernas, gavetas. Caem dos edifícios e nem tocam o chão. Tropeçam e logo saem dançando. Mais adiante, as coisas param, olham em volta, desistem. Coisas inteiras, vistas de perto, são apenas partes.

Tantas coisas são boas! Tantas coisas! E tantas coisas causam doença, miséria, tumulto! Tantas coisas são lindas, e túmulos! Tantas coisas são findas, e livres! Tantas coisas são somente coisas! A gente, meu bem, quer ser tanta coisa, e as coisas não querem ser nada além delas próprias. Plenas de destino, algumas coisas vão, e não voltam. Outras voltam, sem nunca ter ido. Coisas ficam pelo caminho, perdidas; outras persistem a tudo, ruínas.

No fundo, bem lá no fundo, a gente só sabe de uma coisa: as coisas mais sublimes, mais essenciais, mais bonitas, nunca podem ser escritas.

 

 


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