ARAÇATUBA | 19 OUTUBRO
| 16:40 | 20° MIN 30°MAX |
Pancadas de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
A parada é o seguinte

Começo estas linhas sem saber onde vamos parar, eu e a crônica. Queria escrever apenas sobre o amor total, o prazer de viver, a dádiva do sonho. Falar sobre a luz tênue e dourada que encapa as flores aqui de casa nas primeiras horas da manhã. Dizer a todos que a jabuticabeira do quintal está carregada de frutos; que meus pais estão vivos, bem e felizes, e que minha irmã iniciou o plantio de uma linda horta orgânica e comunitária.

Queria escrever sobre o coletivo de arte e educação que estou formando com grandes amigos de Penápolis; que com este coletivo vamos realizar um evento de conscientização ambiental sobre um córrego da cidade na semana que vem; que este corguinho foi apresentado a mim por meu namorado, e que já passei horas incríveis por lá, vendo o pôr do sol e a revoada de pássaros escolher suas árvores-dormitórios.

Queria escrever sobre o bate-papo que terei com o escritor e jornalista Xico Sá no Sesc Birigui, na semana que vem; que estou me sentindo muito lisonjeado de ter sido escolhido para mediador do evento; que acredito na força do diálogo e da palavra para mudar a realidade, e que estou ansioso para lhe entregar um exemplar do meu primeiro livro de poemas para – quem sabe? – uma possível publicação por sua recém-criada editora.

Queria escrever sobre o convite que recebi para celebrar o casamento de dois homens em dezembro, em Araçatuba. Convite que surgiu por eu ter celebrado o casamento de minha irmã com sua companheira no início do ano. E dizer que é uma honra tamanha ser chamado para louvar o amor em um momento tão sublime na vida das pessoas.

Queria escrever sobre o espetáculo musical Samborê Barravento, do qual faço parte como autor e ator; que tem sido uma imensa felicidade participar deste projeto que valoriza a luta dos negros e as religiões de matriz africana no Brasil; que tem sido uma experiência espiritual, por eu ser umbandista, e ancestral, já que meu avô materno era negro, filho de uma escrava liberta, e migrou a pé da Bahia até o interior de São Paulo, perdendo sua mãe pelo caminho.

Queria escrever sobre tudo isso. Mas tudo que citei acima está ameaçado: a luta contra o racismo e o preconceito em relação às religiões de matriz africana, o casamento civil de homossexuais, os espaços de diálogo para contestação do poder constituído, a formação de coletivos de arte e educação que se oponham à coisificação do mundo, a criação de hortas comunitárias e a valorização da agricultura familiar, e até a convivência pacífica e harmoniosa de uma família interiorana.

Tudo isso está ameaçado pelo estabelecimento de ideais fascistas entre nós e, sobretudo, pelo endosso a candidatos que são publicamente racistas, LGBTfóbicos, misóginos, exaltadores da ditadura e da tortura, que pregam o ódio ao diferente e o armamento como solução para a violência e que seguem a cartilha do deus-mercado, acentuando a desigualdade e a miséria do povo brasileiro.

É inconsolável, para mim, ver pessoas queridas apoiando candidatos tão torpes. É tristíssimo saber que aquela amiga de longa data e aquele primo descolado vão votar em alguém que é contrário a tudo o que acredito e que já disse em alto e bom som que deseja o meu extermínio.

Como disse no começo, não sei bem onde vamos parar, eu e a crônica. Tomara mesmo que não nos parem, nunca.

 

 


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