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Poss. de Panc. de Chuva a Tarde - Fonte: CPTEC/INPE
CULTURA E ARTE
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PARLA!
A complexa maré dos acontecimentos
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Quem primeiro chegou foi Orosina Vieira, encantada pelo aprazível Morro do Timbau. Com pedaços de madeira trazidos pela maré, demarcou uma área e ali construiu o primeiro barraco. Com a abertura da Avenida Brasil, na década de 40, vieram os outros. E assim, no manguezal alagadiço, foram surgindo palafitas, que só seriam demolidas de vez na década de 80.

Nascida em 79, Marielle Franco ainda era uma menininha nessa época. “Cria da Maré”, começou a trabalhar aos 11 anos, para ajudar a pagar seus estudos. Em 98, deu à luz sua única filha e ingressou na primeira turma de pré-vestibular comunitário do Complexo da Maré. Passou a militar pelos direitos humanos depois da morte de uma amiga numa troca de tiros entre policiais e traficantes.

Mais tarde, como coordenadora da Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, prestou auxílio jurídico e psicológico a familiares de vítimas de homicídios. A mesma comissão que acolheu a família dela, quando a própria Marielle foi assassinada no dia 14 de março deste ano. Quinta vereadora mais votada da cidade, ela criticava a intervenção federal no Rio e a atuação das polícias, denunciando vários abusos contra moradores da Maré e de outras comunidades.

Uma das ações mais desastrosas da intervenção, desde fevereiro, se deu no dia 20 do mês passado, quando sete pessoas morreram, entre elas o adolescente Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, que levou um tiro pelas costas a caminho da escola. Em vídeos, é possível ver um helicóptero da Polícia Civil fazendo voos rasantes, abrindo fogo sobre a Maré e causando pânico entre os moradores, que apelidaram o veículo de “caveirão voador”. Próximo à escola do adolescente foram contadas mais de 100 marcas de tiro no chão.

Antes de morrer, Marcos Vinicius teria dito: “ele não viu que eu estava com roupa de escola, mãe?”, se referindo ao policial que o matou. Já são oito crianças e adolescentes mortos no Rio só neste ano, por disparos aleatórios, sem que fossem considerados “suspeitos”. Segundo o Observatório da Intervenção, 452 pessoas morreram em 280 operações até agora.

Os casos de Marielle e Marcos Vinicius permanecem sem solução, como inúmeros na Maré, no Rio, no Brasil. A complexa maré dos acontecimentos faz todas essas mortes chafurdarem na lama da injustiça e da impunidade.

Em 2014, Dona Orosina morreu aos 106 anos, na Maré. Pelo pioneirismo e longevidade, se tornou uma figura mítica. Chegou a ser recebida por Getúlio no Palácio do Catete quando o governo cogitou destruir a favela. Suas fotos e objetos pessoais foram o ponto de partida para a concretização do Museu da Maré, em 2006, o primeiro no país dentro de uma comunidade.

Consagrada rezadeira, a grande matriarca abençoava a todos. Bem que ela poderia estar na lua agora e iniciar, desta vez, uma milagrosa maré de boas mudanças!

 

EDER PARLADORE é jornalista, redator publicitário, roteirista, cronista e poeta. Já trabalhou em jornais, revistas, produtoras e agências do interior de São Paulo e Minas Gerais. Prestes a lançar seu primeiro livro de poemas, atualmente também faz parte, como autor e ator, do espetáculo musical “Samborê Barravento”, sobre a importância dos negros e das religiões de matriz africana no Brasil.


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